quinta-feira, 23 de julho de 2009

O ídolo


Gonçalves fora naqueles programas de televisão, cantar para os jurados.

"Nossa! Tua voz é uma merda!"
"Ah, eu até achei a canção bonitinha."
"Que nada! Esse cara é um lixo, nunca vai fazer sucesso!"
"Eu voto, não!"
"É, também voto pra esse cara se fuder!"
"Ah, sendo assim... Eu gostei muito de ti, mas também vou votar não."

- Vocês... Não vão me dar nem mais uma chance? Eu vim aqui passei por tudo isso... pra nada?

"É, rapá! Puxa o carro, cê já era!"
"Fica assim, não, vai. Você pode tentar outra coisa."
"Eu nem olho mais pra esse ridículo!"

Gonçalves saiu chorando, de tristeza e raiva. Começou a cantar músicas agressivas e logo chamou a atenção de um produtor musical que se aproveitava da pseudo-rebeldia de jovens para ganhar dinheiro.

- Você, como se chama?
- Gonçalves.
- Errado! Agora, você é Moltor! E será um homem de muito sucesso!

As músicas de Moltor chacoalhavam a internet e o iPods dos jovens, que se exaltavam com sua rebeldia. Os sonhos de fama e fortuna de Gonçalves estavam realizados, acordava e dormia rodeado de prostitutas e groupies, todas besuntadas de caviar e caros óleos indianos. Algo estava errado, havia uma dor em seu peito. O cantor entrava em sua limusine para mais um dia no estúdio. Um de seus poucos amigos, o chofer, perguntava, preocupado:

- O que houve, senhor Gonçalves? Noto que o senhor, hoje, está mais aflito que o comum.
- Por favor, no momento, desejo ser chamado de Moltor.
- Sim, Moltor. Por que esta aflição?
- Eu não entendo... Desde criança, sempre quis ser famoso, rico... Hoje tenho tudo, mas sinto que deixei algo importante no passado, algo que prende minha alma e impede minha felicidade.
- Está falando... "daquilo", senhor Moltor?
- Sim, Jarbas. Contate o Ribeiro, diga-lhe para usar minha influência e arranjar um encontro com antigos amigos.
- A vingança pode ser uma faca de dois gumes, senhor. Quem sabe o que pode resultar disso?
- Veremos, Jarbas. Veremos.

Os jurados acordaram. Estavam amordaçados e imobilizados, em um quarto de luminosidade baixa. Moltor adentra o recinto.

- Boa noite, senhores. Como estão? Vocês me conhecem, todos conhecem Moltor, mas acredito que vocês me conheçam também por... Gonçalves, estou correto?

Gonçalves abre uma maleta com seringas, cada uma contendo um líquido de cor diferente.

- Estas belezinhas me foram dadas por um amigo alemão. Diz ele terem sido utilizadas nos campos de concentração. Hitler nunca fracassou em uma tortura, utilizando-as. São bastante famosas, em seu local de origem.

Grunhidos disformes são ouvidos das vítimas, abafados pela mordaça.

- Tenham calma, amigos. Estas seringas não matam ninguém...

Gonçalves aciona um interruptor, que acende uma luz e mostra inúmeros aparelhos de tortura.

- ...estas coisas, sim, matam. Façam suas preces, senhores.

A noite foi longa para alguns, curta para outros.

No dia seguinte, Moltor adentrava a limusine.

- Bom dia, senhor Moltor.
- Por favor, Jarbas. Chame-me de Gonçalves.
- Sim, senhor Gonçalves. Direto para o estúdio?
- Exatamente, estou com umas idéias novas, quero lançar um álbum novo. Sinto minha vida mudar.
- Bom saber de sua melhora, senhor.
- Agradeço o apoio, Jarbas. Vamos em frente.

Gonçalves foi feliz e rico para o resto da vida, e nunca mais sentiu a dor e tristeza que sentia antes.