sábado, 12 de setembro de 2009

Águas passadas

Cristina tomou um susto ao ver o garçom.

- Jorge?! Você trabalha aqui?!

A mulher não estava assustada à toa. Mesmo após dez anos, lembrou-se do rapaz que ela esnobou e humilhou na frente de vários. Não soube o que dizer. O silêncio tomou conta naquele momento. Até que foi quebrado.

- Não se preocupe, Cristina. Aquilo que você me fez foi difícil superar, mas são águas passadas. Você sempre foi uma mulher muito bonita, e a empolgação da juventude deve tê-la feito menosprezar um sujeito simples como eu. Não sou o único aconteceu muitas vezes, coisas de gente jovem... Não é? Hahahaha!

Aliviada, mas surpresa, por Jorge ter perdoado aquilo, a mulher se recompõe emocionalmente.

- Bom... Me desculpe, mesmo, Jorge. Aquilo foi... besteira de uma jovem.
- Sei, sei... Apesar de ter me afetado por um bom tempo, fiquei depressivo, trancado no quarto, chorando... Tô voltando agora... Pro mundo... Não sei se tô preparado, sabe? Peguei esse emprego de garçom, é difícil quererem empregar alguém com problemas psicológicos.

Cristina tornou a ficar desconfortável. Teria Jorge realmente esquecido aquilo?

- Mas não se preocupa, olha. Tô superando tudo muito bem, aprendi a ser feliz mesmo estando em situação ruim, com fé eu chego lá. E você? Soube que você casou com um empresário rico, está bem de vida, né?
- S-sim... Como você sabe?
- Me contaram.
- Quem?
- Amigos...
- ...
- ... em comum.
- Ah.
- Mas, sim, em que posso ser útil? Gostaria de anotar o seu pedido, afinal, estou aqui a trabalho. Hahaha!
- Bem... Eu... Vou querer o prato do dia... e me traga um refresco de goiaba, por favor.
- Sim, senhora. Já está saindo.

Enquanto Jorge transmitia o pedido ao chef de cozinha, Cristina lembrava daquele momento.

- Cristina, você leu a carta que te mandei?
- Tá falando... "daquilo"?
- Sim, sim. O que você acha?
- Jorge, te enxerga! Você é um maltrapilho, moleque que não sai pra balada, pra curtição... quer o que comigo, hein? Eu não fui feita pra ti, moleque!
- Mas... deixa só eu te explicar, por favor!
- Jorge, cai fora, tá! Tem um monte de gente querendo ficar comigo, e vou escolher logo você? Te enxerga, garoto!

Ela se afastava, enquanto Jorge afundava em lágrimas, aos risos de vários colegas que assistiram a cena. Cristina acorda do seu devaneio por um chamado.

- Cristina, Cristina! Está me ouvindo? Trouxe seu prato!
- Ah, sim... Obrigado... Jorge.
- De nada, espero que você aprecie nossa comida. Uma das melhores desta cidade.

Cristina come pouco à vontade, quando Jorge aparece com a conta.

- Eu gostaria que você assinasse aqui, por favor.
- Assinatura? Não me lembro de precisar disto.
- Calma! Não é nada demais! Veja... é só a conta. Basta assinar, como uma espécie de recibo, uma forma de garantirmos que você pagou. Novas normas do restaurante.
- Ah... Sei... Aqui está, Jorge. Até uma próxima vez. Tenho que voltar ao trabalho.
- Até a próxima, Cristina. Terei prazer em serví-la novamente. - despede-se com um sorriso amistoso e animado.

O tempo passa, e o hábito se perpetua. Cristina ia ao restaurante, pedia o prato do dia, o suco de goiaba. Depois, Jorge trazia a conta para ela assinar. A relação dos dois estava, enfim, amistosa.

Certo dia, na hora do almoço, Cristina pede uma caneta para a amiga.

- É que esqueci a minha em casa, e preciso dela no restaurante. Pra assinar a conta.
- Assinar a conta? Que restaurante é essa, Cristina?
- Ué, o Pierre's, onde sempre como.
- Ah, mas eu como lá e ninguém me pede pra assinar nada.
- Nunca?
- Não, e olha que fui lá ontem, mesmo!

Cristina fica confusa. No restaurante, faz o pedido. Enquanto comia, a mulher pergunta.

- Jorge, você pede para eu assinar a conta... Ouvi dizer que este restaurante não faz isto com nenhum outro cliente.
- Não se preocupe, Cristina. Não é algo que eu vá mais pedir a você.
- Como assim? - estranha a mulher.

Jorge abre a bolsa dela e deposita algumas coisas.

- O que você pôs na minha bolsa?
- Olhe você mesma.

Cristina abre sua bolsa e encontra um papel que lembra muito uma carta. Ali, estava anexada fotos de seu marido a traindo com outra mulher.

- Não se preocupe, Cristina. São falsas. Eu mesmo as fiz. Lembra quando você me humilhou dizendo que eu vivia enjaulado em casa? Pois é, aprendi nesse tempo, a modificar fotos.
- Jorge, como ousa? Eu vou me retirar!
- Por favor, já que você não ligou para a primeira carta que te fiz, leia pelo menos esta segunda.

Meio contrariada, Cristina lê a carta. Com letras tremidas, como que escrita por alguém à beira de um ataque de nervos, ali dizia:

"Eu não aguento!! Não aguento perder a vida de riquezas que conquistei casando com meu marido!! Se ele quer me trair com outra, eu vou sair por cima!! Todas as pessoas sabem que não nunca saio por baixo, este é meu estilo!! Espero que você esteja feliz, cafajeste, pois estarei te esperando no inferno!! Assinado: Cristina Montberg".

- Mas que carta é essa?! E como esta assinatura é idêntica à minha?
- Bem-vinda à justiça, Cristina. A vida esta lhe pagando o que você me fez.

Cristina queria gritar, mas não encontrava forças. Sentia-se fraca, sonolenta. Com esforço, sussurra.

- S-seu louco...
- Calma, você é apenas uma louca suicida, que, com medo de perder a fortuna do marido para a amante, despejou uma dose de letal de arsênico no próprio suco de goiaba, a fim de sair de cena causando impacto, como todos sabem que você adora fazer. É... Vai ser uma bela conclusão do laudo policial.
- Por... que... Jorge? Por quê?
- Shhhh... Calma, minha bela Cristina, não ocupe sua cabecinha com esses pensamentos complexos. Tenha uma morte calma e suave. Shhh... É hora de dormir, minha princesa.

Jorge a beija levemente nos lábios, enquanto vira-se e grita:

- SOCORRO! TEM UMA CLIENTE PASSANDO MAL! CHAMEM A AMBULÂNCIA!!! RÁPIDO!!!

Cristina chegou morta ao hospital. Jorge estava tremendo, disse à polícia que trouxera a conta e a mulher desmaiou em sua frente. Revelou-lhes ser uma amiga de muito tempo atrás, e chorava copiosamente, dizendo não entender como aquilo aconteceu. A polícia confortava-lhe, com a carta em mãos, dizia que Cristina era uma pessoa problemática, egocêntrica, e que deveria ter procurado ajuda enquanto era tempo.

O gerente do restaurante resolveu dar uma semana de folga à Jorge, para que o rapaz pudesse se recompor. Foi ao velório e funeral de Cristina. Chorou em ambos. À noite, ao chegar em casa, Jorge tirou a camisa, deitou-se na cama, e riu, como há anos não havia rido.

- Como existe gente louca neste mundo! Hahahahahaha!!!

E as risadas de Jorge ecoaram pela calmaria da noite, substituindo aquele antigo eco das risadas de chacota que sofrera muito tempo atrás. Mas, aquilo... eram águas passadas.


sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Além da mente

- Oi, eu sou a Ciência. Sou uma criança muito curiosa. E você?
- Eu sou... a... Religião. Sou bem-vivida, vi muitas coisas... estranhas por aqui.
- Você está trêmula.
- VOCÊ TAMBÉM ESTARIA SE VISSE O QUE EU VI, FILHA DA PUTA! VOCÊ ESTARIA!

A Religião finca seus dedos na garganta da Ciência, estrangulando-a com força. Pouco a pouco, a criança vai cerrando os olhos, e a Religião nota o que está fazendo, libertando-a.

- Desculpe, estou um pouco tensa. Há... coisas aqui... não consigo explicar.
- Que coisas?
- SEI LÁ, PORRA! NÃO DISSE QUE NÃO CONSIGO EXPLICAR?
- Mas, mas... É necessário uma explicação pra tudo e...
- Explicação? EXPLICAÇÃO? CARALHO, TER FÉ NO QUE DIGO NÃO BASTA? TU É BEM PICUDINHA, CRIANÇA! QUER TIRAR MINHA AUTORIDADE? QUER?

Já sabida do perigo, a Ciência se esquiva.

- N-não... Que isso... Se for assim, eu acredito.
- É... Acho bom. Sabe, desculpe esse nervosismo, é que todo esse tempo sozinha aqui, né... Sabe como são as coisas.
- Só existe você e eu aqui?
- Eu, você e... eles.
- Eles?
- Sim, é o que tô falando.
- Tem certeza que não é sua imaginação? Porque você parece tão...
- ... pareço o quê? - diz alterando um pouco o tom de voz.
- ... nada.
- Seguinte, atrás dessa porta... Ele está lá.
- Quem?
- O Bafomé!
- Isto não existe, é uma espécie híbrida que seria impossível de sobreviver, dadas as combinações genéticas e... errr... mas não se altere! Estou falando isso para o seu bem, já que você está tão nervosa.
- Então... Eu posso passar pela... porta?
- Pode, sim.

Ciência e Religão, juntas, abrem a porta. O local escuro e lúgubre fica para trás conforme ambas avançam pela luz do ambiente externo. Um campo pantanoso, mas bonito, calmo, repleto do coachar dos sapos e as luzes tênues de alguns vagalumes que vagavam por ali.

- Está vendo? Não disse que não tinha nada aqui?
- É... É verdade. Talvez... você saiba das coisas.
- Sabe, eu posso ser seu guia neste lugar, você está vendo muitas coisas, precisa de alguém que lhe diga o que é verdade ou não.
- Sim, sim... Talvez.
- Então, vamos?
- Claro, vou só pegar minhas coisas e... CADÊ MINHAS COISAS, PORRA??? ONDE DEIXEI?
- Ai... Não ficaram lá dentro?
- É... Talvez... Vou procurar.

A Religião volta para o recinto escuro, deixando a Ciência em um momento de paz. A criança observava os campos onde estava, e focou-se com persistência nos vagalumes.

- Estas luzinhas... Como será que elas AAAAAAAAAAAAAAAAAAHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH!!!!

Dor, apenas dor. Uma dor seca, como se um pedrugulho lhe fosse atirado às costas, em alta velocidade. De bruços no chão, sente o ardor do líquido que escorre por suas costas, vertendo de dois imensos talhos que lhe fustigam a pele. Pela sua visão turva, graças ao baque e às suas madeixas claras que atravassam seus olhos, observa a figura dantesca que urra um rugido infernal, estridente, em direção ao centro da terra, como se convocasse os vermes do solo para assistir o sacrifício que ali se faria. O animal, se é que assim poderia ser chamado, um misto de homem e bode, com força sobrehumana e ódio sem igual, dança em cima da criança, esmagando ossos com as fortes passadas de seus duros cascos. A Ciência vomita jorros de sangue pela boca, e de água pelos olhos, amedrontada pelos urros guturais aos seus ouvidos, mesclados à canção fúnebre entoada pelos vermes da terra: "Durma, criança, extingua sua fé, deixando o seu corpo à mercê do Bafomé".

Um pressentimento fez com que a Religião se fechasse novamente no local, temendo algo que não sabia explicar, mas não havia necessidade de explicação diante da magnitude de certos poderes. A Religião procuraria outro dia para sair, um dia em que não desafiasse com prepotência aqueles que estão aquém da simplícia lógica humana. Um dia para buscar melhores tempos.