sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Além da mente

- Oi, eu sou a Ciência. Sou uma criança muito curiosa. E você?
- Eu sou... a... Religião. Sou bem-vivida, vi muitas coisas... estranhas por aqui.
- Você está trêmula.
- VOCÊ TAMBÉM ESTARIA SE VISSE O QUE EU VI, FILHA DA PUTA! VOCÊ ESTARIA!

A Religião finca seus dedos na garganta da Ciência, estrangulando-a com força. Pouco a pouco, a criança vai cerrando os olhos, e a Religião nota o que está fazendo, libertando-a.

- Desculpe, estou um pouco tensa. Há... coisas aqui... não consigo explicar.
- Que coisas?
- SEI LÁ, PORRA! NÃO DISSE QUE NÃO CONSIGO EXPLICAR?
- Mas, mas... É necessário uma explicação pra tudo e...
- Explicação? EXPLICAÇÃO? CARALHO, TER FÉ NO QUE DIGO NÃO BASTA? TU É BEM PICUDINHA, CRIANÇA! QUER TIRAR MINHA AUTORIDADE? QUER?

Já sabida do perigo, a Ciência se esquiva.

- N-não... Que isso... Se for assim, eu acredito.
- É... Acho bom. Sabe, desculpe esse nervosismo, é que todo esse tempo sozinha aqui, né... Sabe como são as coisas.
- Só existe você e eu aqui?
- Eu, você e... eles.
- Eles?
- Sim, é o que tô falando.
- Tem certeza que não é sua imaginação? Porque você parece tão...
- ... pareço o quê? - diz alterando um pouco o tom de voz.
- ... nada.
- Seguinte, atrás dessa porta... Ele está lá.
- Quem?
- O Bafomé!
- Isto não existe, é uma espécie híbrida que seria impossível de sobreviver, dadas as combinações genéticas e... errr... mas não se altere! Estou falando isso para o seu bem, já que você está tão nervosa.
- Então... Eu posso passar pela... porta?
- Pode, sim.

Ciência e Religão, juntas, abrem a porta. O local escuro e lúgubre fica para trás conforme ambas avançam pela luz do ambiente externo. Um campo pantanoso, mas bonito, calmo, repleto do coachar dos sapos e as luzes tênues de alguns vagalumes que vagavam por ali.

- Está vendo? Não disse que não tinha nada aqui?
- É... É verdade. Talvez... você saiba das coisas.
- Sabe, eu posso ser seu guia neste lugar, você está vendo muitas coisas, precisa de alguém que lhe diga o que é verdade ou não.
- Sim, sim... Talvez.
- Então, vamos?
- Claro, vou só pegar minhas coisas e... CADÊ MINHAS COISAS, PORRA??? ONDE DEIXEI?
- Ai... Não ficaram lá dentro?
- É... Talvez... Vou procurar.

A Religião volta para o recinto escuro, deixando a Ciência em um momento de paz. A criança observava os campos onde estava, e focou-se com persistência nos vagalumes.

- Estas luzinhas... Como será que elas AAAAAAAAAAAAAAAAAAHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH!!!!

Dor, apenas dor. Uma dor seca, como se um pedrugulho lhe fosse atirado às costas, em alta velocidade. De bruços no chão, sente o ardor do líquido que escorre por suas costas, vertendo de dois imensos talhos que lhe fustigam a pele. Pela sua visão turva, graças ao baque e às suas madeixas claras que atravassam seus olhos, observa a figura dantesca que urra um rugido infernal, estridente, em direção ao centro da terra, como se convocasse os vermes do solo para assistir o sacrifício que ali se faria. O animal, se é que assim poderia ser chamado, um misto de homem e bode, com força sobrehumana e ódio sem igual, dança em cima da criança, esmagando ossos com as fortes passadas de seus duros cascos. A Ciência vomita jorros de sangue pela boca, e de água pelos olhos, amedrontada pelos urros guturais aos seus ouvidos, mesclados à canção fúnebre entoada pelos vermes da terra: "Durma, criança, extingua sua fé, deixando o seu corpo à mercê do Bafomé".

Um pressentimento fez com que a Religião se fechasse novamente no local, temendo algo que não sabia explicar, mas não havia necessidade de explicação diante da magnitude de certos poderes. A Religião procuraria outro dia para sair, um dia em que não desafiasse com prepotência aqueles que estão aquém da simplícia lógica humana. Um dia para buscar melhores tempos.